As previsões para os orçamentos de TI em empresas da Europa e dos Estados Unidos, de acordo com o Gartner, não é das mais agradáveis. Os problemas econômicos que afetam aqueles países devem levar para baixo os montantes investidos. O que leva a um questionamento inicial: será que veremos algo semelhante no Brasil? E a uma segunda pergunta que tentaremos responder: como serão gastos os orçamentos por “essas praias”? Cloud, mobilidade e social media estão na ordem do dia.
Para a IDC, 2011 se encerra com o Brasil como o 8º maior consumidor de TI no mundo, com algo como US$ 142 bilhões de investimentos e 13% de aumento em relação ao ano passado. E a explicação é simples e direta. “O País ainda tem muito a investir, não apenas em portos e aeroportos, mas em infraestrutura em geral. Estamos passando por um momento de forte crescimento, o que traz boas perspectivas”, aponta Alexandre Vargas, analista de mercado da IDC Brasil.
Entre as mudanças no cenário de infraestrutura, a IDC fala na chamada “terceira onda de tecnologia”, marcada especialmente pela mobilidade (veja mais no Box: Negócios sem fio), irmã de sangue da plataforma de cloud computing e prima de 1º grau da chamada “consumerização” – conceito de que cada vez mais, e rapidamente, os usuários utilizam tecnologia mais recente efetuando
tarefas de maneira mais rápida, estejam elas dentro ou fora da empresa. Diante deste cenário, a IDC prevê uma proliferação de oportunidades no setor de aplicativos, não somente em tablets e smartphones, mas também em automóveis, televisões, máquinas de lavar roupas, geladeiras etc.
Se esses fenômenos são mundiais, eles ganham mais importância nos países emergentes como o Brasil, já que o cinto das corporações globais em TI estará mais apertado em 2012.
Se ainda não existem previsões pessimistas quanto aos orçamentos por aqui, o mesmo não podemos dizer de nossos colegas no hemisfério norte. O Gartner prevê uma redução nos gastos tanto nos Estados Unidos como na Europa – ao mesmo tempo em que a mobilidade se torna imprescindível, junto com colaboração e redes sociais.
Essa dura realidade nos maiores centros de gastos de TI do mundo levou os analistas do Gartner a pedirem que os CIOs repensem até mesmo seus departamentos – algo que também explica porque cloud está mais acelerado por lá que no Brasil.
Outro termo utilizado é o de “destruição criativa”, cunhado por Tina Nunno, analista da consultoria, que prega que é necessário derrubar as barreiras internas organizacionais e aderir aos formatos que levem à inovação. “Destruam o perfeccionismo e abracem o risco calculado”, afirmou Tina em evento da companhia.
A realidade brasileira
O mesmo Gartner, no entanto, fala que os gastos com TI no Brasil podem chegar aos US$ 143,8 bilhões em 2012, 10,1% acima dos US$ 130,6 bilhões de 2010. E projeta que o setor apresentará crescimento até 2014, com uma taxa anual de 9,9%. “O Brasil foi menos afetado pela crise financeira mundial em virtude de sua disciplina fiscal, do consumo interno e do mercado diversificado de exportação”, apontou Peter Sondergaard, vice-presidente do Gartner e global head de Pesquisas.
Para o executivo, as organizações brasileiras abraçaram a recessão global como uma oportunidade e buscaram a tecnologia como um fator decisivo, o que ajudou o País a se recuperar rapidamente na demanda e no crescimento de TI. “Os CIOs brasileiros têm a oportunidade de se tornarem líderes mundiais na adoção de TI”, concluiu.
Bem na foto
Multinacional do setor de seguros, a Aon está presente em 120 países e soma 500 escritórios e 59 mil colaboradores em todo o mundo. No Brasil, onde possui 900 funcionários e 11 escritórios nas principais cidades, a previsão da área de TI é de aumento acelerado no budget. “Em 2011, nosso orçamento cresceu 35% e traçamos uma estimativa de 15% para o próximo ano”, revelou Nádia Alencar, diretora de TI da empresa.
Ela admite que sempre existiu, e não mudou, a pressão para reduzir custos. No entanto, o cenário positivo da Aon se deve à reestruturação da operação de TI da companhia, que ganhou uma grande injeção de investimentos. “Nosso setor sempre será visto como centro de custos, isso não muda. Mas a nossa realidade local está em alta, porque precisamos investir em infraestrutura, segurança de redes, links internos e externos, VoIP e, o mais significativo, em mão de obra, para suportar nossa curva de crescimento”, enumera.
Mesmo com iniciativas de outsourcing, como em service desk, a realidade se traduz em aumento de projetos ligados à TI interna. “Nosso movimento é de, no mínimo, 3 anos e é voltado para a perspectiva de crescimento da empresa no Brasil. Mobilidade e qualificação da mão de obra estão entre os temas principais”, projeta Nádia.
Aprovação na pauta
Ela admite que a montagem do orçamento sofre influência da matriz, porém no sentido de que existem projetos corporativos globais, como compra de licenças ou procedimentos de segurança. “Tenho uma parcela do meu budget de 2012 voltado para isso, porém tenho liberdade em projetos locais”, explica.
O processo de aprovação do budget, ela revela, passa pelo CFO (Chief Finance Officer) e é preciso que ele acompanhe o crescimento da empresa. “Tenho que chegar ao nível do detalhe, é natural”, comenta. Mas, como ela ressalta, em uma empresa de serviços como a Aon é extremamente prioritário o investimento em tecnologia que suporte o negócio.
Questionada se a parcela de inovação nos orçamentos de TI no Brasil sempre é diminuta, ela fala que o momento da Aon é diferente desse lugar-comum, mesmo que não totalmente revolucionário. “Como passamos alguns anos com investimento baixo e temos que mirar a excelência operacional, dependo de tecnologia e de pessoas habilitadas para sustentar o crescimento da companhia. Existe inovação, porém quando mudamos os processos não é uma inovação em letras maiúsculas”, argumenta.
Ela admite que é preciso investir mais em mobilidade nos próximos anos, porém cloud ainda não está entre suas prioridades. “Não vou investir em 2012, não vejo a plataforma como algo totalmente maduro, embora veja como o futuro da tecnologia”, minimiza.
Preocupada com a evolução dos salários do setor, e vendo como algo constante em 2012, Nádia adota o modelo de equipe flutuante, com uma equipe própria de analistas e a contratação de equipes parceiras para projetos. Ao todo são 35 pessoas na TI somando essas duas realidades.
Na visão geral, e no bom sentido, segundo Sondergaard, os tempos mudaram e a TI não é mais algo sem importância. “O setor é um impulsionador básico do crescimento dos negócios. Como exemplo, observamos que, somente este ano, 350 companhias vão investir mais de US$ 1 bilhão em tecnologia, e elas estão fazendo isso porque esta é a área que tem impacto no desempenho de seus negócios”, completa..
País tropical
O mercado de TI no Brasil, segundo o Gartner
US$ 130,6 bilhões, em 2010
US$ 142 bilhões, em 2011
US$ 143,8 bilhões, em 2012
Tecnologias em alta
Os investimentos que estão ou deveriam
estar no topo das prioridades dos CIOs globais em 2012, de acordo com o Gartner:
Cloud Computing
Computação social
atrelado às redes sociais
Big Data
evolução da lógica de warehouse de dados
Mobilidade
com os smartphones e os tablets na proa
Negócios sem fio
O futuro da TI pode estar nos smartphones e nos tablets. Como uma amostra dessa tendência, estudos da IDC apontam que em 2015 o Brasil já venderá mais smartphones do que telefones convencionais. E em uma outra pesquisa – da mesma IDC – se fala que 74% das empresas já disponibilizam aos funcionários o acesso remoto a uma ou mais aplicações corporativas por meio da internet.
E isso não é um fenômeno brasileiro. A IDC estima que já existam 5 bilhões de celulares no mundo – mais de quatro equipamentos tecnológicos diferentes por pessoa. O que leva a uma evolução natural de uma boa fatia deles rumo aos smartphones e mesmo aos emergentes tablets.
Se no ano passado foram vendidos ao menos 20 milhões de tablets no mundo – quase que a maioria esmagadora de iPads, da Apple – a previsão do Gartner para 2016 fala que 900 milhões de tablets estarão em uso – ou um para cada oito pessoas em todo o mundo.