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Mais uma batalha da Cruzada
quarta-feira, 20 de julho de 2005, 19h44



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Pesquisa do Yankee Group, realizada nos Estados Unidos, coloca mais lenha na fogueira que aquece a batalha entre o Windows, da Microsoft, e os sistemas abertos, liderados pelo Linux. O estudo destaca que a confiabilidade e o desempenho do ambiente Microsoft é igual ou superior ao seu oponente





Mal comparando, discutir a questão do uso de Linux e do Windows nos servidores tem se tornado uma tarefa tão complexa quanto saber os direitos de Palestinos, Cristãos e Judeus sobre o terreno sagrado de Jerusalém � disputa que evolui desde os tempos imemoriais. Na Cruzada tecnológica, existe muito de política envolvida, uma grande parcela de posicionamento de mercado dos players e uma bela pitada de rivalidade que cresceu nos últimos dois anos. Para colocar pimenta na discussão, o Yankee Group fez uma pesquisa com corporações norte-americanas para avaliar o uso das duas plataformas, e o resultado, que em uma primeira leitura é favorável ao Windows, gera polêmica.



É interessante situar que a trajetória do Windows no mundo dos servidores é semelhante ao estágio de crescimento do Linux. Ambos começaram na periferia dos departamentos de TI. O Windows surgiu como uma alternativa ao Unix na plataforma baixa, que depois se mostrou dominante com o downsizing e o modelo Wintel (sistemas Windows combinados com máquinas de chip Intel). Já o Linux surgiu como uma alternativa ao sistema de Bill Gates e como um sucessor mais light do poderoso Unix. Assim como o Windows evoluiu para o centro das plataformas de servidores, o Linux começa a fazer o mesmo movimento em muitas corporações. Resultado: o controle da �Jerusalém de TI� é renhido e move os dois lados.



Ninguém pode negar, nem mesmo a Microsoft, dona do Windows, ou a IBM, um dos poderosos padrinhos do Linux, que o sistema aberto tem ganhado espaço. Assim como é normal admitir que o ambiente corporativo começa a utilizar o software livre, mesmo antes do esforço do Governo Lula em empunhar essa bandeira. Um movimento que, claro, chamou a atenção do mercado e acelerou o reconhecimento da alternativa.



Os números apontam para o crescimento dos sistemas abertos (veja box com pesquisa do Softex). De acordo com a IDC, o sistema Linux já responde por 9% do mercado mundial de sistemas operacionais e a projeção é que atinja 18% em 2007. Na pesquisa do Yankee, a penetração do sistema aberto nas companhias norte-americanas é de 50% e as utilizações são as mais variadas possíveis. Um percentual, aliás, que para alguns analistas pode até ser maior. Como não existe um programa de licenças do Linux é complicado verificar e controlar a entrada do sistema nas corporações.



Mas a briga está apenas começando, com o Linux em franco avanço rumo ao coração das empresas. �A tendência é o sistema devorar o que ainda resta de presença do Unix e seguir adiante. A competição é boa, fez até com que o Windows melhorasse�, aponta Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil e autor do livro Software Livre, Potencialidade e Modelos de Negócio.



Polêmica na interpretação

Os resultados de performance e utilização divulgados pelo Yankee são ainda mais polêmicos. �Achei a pesquisa tendenciosa, é preciso ler o relatório com muito senso crítico. De acordo com o título do gráfico de licenciamento do Windows (veja a fatia de cada um abaixo, em Divisão do Patrimônio), 2/3 dos pesquisados dizem que ele está econômico. Mas se você reparar, 38% disseram que aumentou, 35% que continua na mesma e 27% é que apontam que os valores decresceram�, rebate Taurion.



E ele segue em sua crítica. �O resultado de performance da pesquisa do Yankee é muito genérico, é preciso comparar no mesmo ambiente, e verificar as versões utilizadas�. No que concorda Roberto Prado, gerente de estratégias de mercado da Microsoft: �é preciso comparar maçã com maçã, e elas precisam estar na mesma árvore e galho�, diz. Como árvore e galho, entendam-se mesmas aplicações e servidores.



Prado, no entanto, elogia a iniciativa do Yankee, mais até que os resultados favoráveis ao Windows. �Trabalhamos sempre com fatos, com cases, nossa abordagem é levar a informação para os clientes. O esforço da indústria em auxiliar a escolha da melhor plataforma deve ser aplaudido. Temos que separar os fatos do mito�, alerta. Entre os mitos, para Prado, está a questão do custo sempre associado como de menor monta quando se fala em Linux. No entanto, a pesquisa do Yankee não dá boas notícias ao apontar o maior custo de downtime das plataformas, que seria três vezes superior no Windows que no Linux.



Para Taurion, a maior parte do TCO envolvido na continuidade das plataformas é basicamente voltado para a mão-de-obra. Segundo ele, os custos de suporte em Linux, mais restritos, podem até ser maiores hoje, mas tendem a cair com a maior oferta. Esse foi um fator decisivo para a Agrenco. �Estudamos as plataformas operacionais, testamos as soluções e optamos pelo Windows. Ele oferece mais flexibilidade e um melhor suporte do que as opções em Linux�, garante Fernando Locatelli, gerente de TI da empresa. �Se eu estivesse no Rio de Janeiro, em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, talvez a história do suporte fosse diferente�, completa.



Grupo voltado ao agronegócio, a Agrenco foi estruturada em 2003 com a fusão de cinco empresas do setor e tendo como sede Itajaí, no vale de mesmo nome, em Santa Catarina. E o desafio era grande, pois todos os ambientes de redes eram heterogêneos e fora de padrões. Na comparação de custos e benefícios feita pela companhia, os valores levantados nas duas plataformas foram semelhantes. A empresa possui hoje um servidor com Linux para o firewall em meio a outras 15 máquinas com Windows. �A razão para manter a plataforma é que preciso ter uma segunda infra-estrutura de segurança presente. E ele funciona bem�, aponta Locatelli.



Ataques e mais ataques

No quesito recuperação de ataques, as companhias pesquisadas apontam que o Linux demora 30% mais que seu concorrente. �Não me surpreendeu, o Linux, atualmente, é mais vulnerável à ataques. Em sites que relatam invasões eles são campeões. E o suporte deles é deficiente�, critica Prado, da Microsoft, no que rebate Taurion. �A recuperação de ataques passa pelo suporte oferecido, não pela plataforma. Por ser muito novo, o Linux ainda não tem suporte em todos os lugares. O Windows há seis ou sete anos tinha a mesma deficiência�, compara.



O quesito segurança, no entanto, é uma das motivações que fez com que a Comil seguisse utilizando o Linux. �Já existia a cultura na empresa, a plataforma é mais estável e garante maior segurança que o Windows. Migrei a última máquina quando colocamos o novo sistema de ERP na companhia�, contate. Empresa fabricante de carrocerias e ônibus, localizada em Erechim, no Rio Grande do Sul, estado com forte cultura de sistemas abertos, a companhia possui 15 servidores que sustentam a produção de 220 ônibus/mês.



Outras razões que definiram a manutenção da cultura pré-existente, segundo Yoshihara, foram a manutenção eficiente da plataforma, feita interna e externamente por um parceiro, e a questão dos custos, �muito menores que o NT, principalmente no suporte�, além dos problemas de segurança do mundo Windows. Prado, da Microsoft, discorda e afirma que se o Sistema de Pagamentos Bancários utiliza a plataforma NT é porque eles sabem que ela é mais segura.



Neste momento, o projeto da Comil esta na fase de integração que permitirá aos administradores o gerenciamento de todos os recursos disponíveis nos diferentes servidores a partir de uma console central, com a solução da integradora LinuxMax. �Estamos desenvolvendo uma interface gráfica, que ainda é um grande problema da plataforma, junto com um parceiro�, revela.



A maior crítica ao mundo dos sistemas abertos, no entanto, extrapola a pesquisa do Yankee � e existe há anos: é a falta de uma estratégia de desenvolvimento que resguarde o usuário. Porém, se o Linux começou como uma comunidade, agora tem uma estrutura profissionalizada por trás. Hoje, existem três níveis de desenvolvimento: 100 pessoas espalhadas pelo mundo, responsáveis pelo Kernel (o núcleo do sistema); outros mil profissionais que colaboram; e outros milhares que auxiliam as camadas acima. �A IBM, por exemplo, possui centros, chamados de Linux Technology, que escrevem inclusive diretamente para o Kernel.

Existe uma massa crítica e o Linux é apoiado pela indústria como um todo�, assegura Taurion.





. Divisão de Patrimônio



Base de sistema operacional no servidor, segundo pesquisa da FGV



Windows 63%

Unix e Família 30% (15% Linux)

Novell 4%

Outros 3%

Fonte: 16o. Pesquisa Administração de Recursos de Informática FGV-SP





BOX: Pesquisa no mundo Linux



Com o nome de �Impacto do Software Livre e de Código Aberto na Indústria de Software do Brasil�, a pesquisa realizada pelo Softex (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro) e pelo Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas � UNICAMP, mapeou o universo da plataforma Linux no Brasil. Um documento que, de acordo com seus organizadores, tenta explicar a presença do sistema no mercado.



Isso depois de um ano de trabalho, dividido em quatro fases distintas: um painel com 50 profissionais � especialistas, desenvolvedores, usuários e gente ligada à comunidade de desenvolvimento da plataforma �; uma enquête eletrônica com 3.657 respostas (dos quais 1.953 desenvolvedores); entrevistas com desenvolvedores e usuários; e pesquisas com outras fontes de informação e conversas com 16 empresas. �O resultado é que um novo modelo de desenvolvimento está se instalando. Muitas empresas de grande porte apontam que o Linux é estável, e existe uma profissionalização rápida�, garante Giancarlo Stefanuto, coordenador geral da Softex.



Para ele, a curva de crescimento da utilização do Linux deu um salto inegável com o Governo Lula e suas políticas de investimento em software livre. �O usuário corporativo respondeu a isso com uma maior confiança na plataforma. Quem está na ponta final quer que funcione bem a um custo menor, não importa muito o quê ele usa e sim que ele seja bem atendido�, garante Stefanuto. Ele argumenta que mesmo com uma mudança política, com a entrada de um novo Governo em 2007, a plataforma Linux não deve frear seu crescimento.



�Não queremos fazer apologia ao software livre, mas colocar mais informações para o debate de utilização das plataformas. Sabemos que este ambiente não é a solução para todos�, assegura Stefanuto. Entre os resultados mais destacados está o que aponta que a motivação do uso do software livre se deve a questões econômicas e técnicas, e não apenas do custo. Assim como revela a sua utilização em expansão por grande companhias � os sistemas estão presentes em 64% das empresas que faturam mais de R$ 1 milhão por ano � e em 65% daquelas com mais de 99 funcionários. Os setores da economia nos quais a presença é maior: comunicação, governo, comércio e educação.



A pesquisa estima ainda que o mercado para os sistemas operacionais baseados em software livre alcançou a dimensão de R$ 77 milhões, com potencial de dobrar ou até mesmo triplicar esse valor até 2008. No entanto, os resultados são questionados pelo outro lado da trincheira. �A consulta foi feita no mundo Linux e a pesquisa é muito restrita aos usuários e a comunidade de software livre, o conteúdo é questionável�, afirma Roberto Prado, gerente de estratégias de mercado da Microsoft.
Por Claudio Ferreira
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